Em Santa Catarina passando uma temporada por conta de projetos pessoais - região do Brasil que ainda não havia tido a oportunidade e o prazer de conhecer -, pude ampliar ainda mais a visão sobre a diversidade que esse país abriga. Esse Brasil de tantas raízes, de tantas misturas, de tantos resultados miscigenados que vão além daquela primeira matriz configurada pelo antropólogo Darcy Ribeiro – índio, europeu, africano – não pode e nem deve limitar-se a um perfil que o defina simplesmente como isso ou aquilo.
É um Brasil, como delineou o próprio Darcy, tão repleto de “brasis” que uma única classificação não cabe em suas tantas variantes culturais, comportamentais, religiosas, seus modus vivendi, seus paladares, falares, inflexões, sotaques peculiares e etnias. Uma feição que muda a depender das influências que cada região recebeu dos colonizadores e dos processos migratórios ocorridos nos diversos momentos históricos pelos quais o país passou.
O meu olhar observador que percorre hoje essa pequena parte catarinense, cravada na dimensão continental brasileira, reflete: Não, definitivamente o Brasil não tem porque ter uma única fisionomia. O rico, o bonito e culturalmente interessante é justamente essa pluralidade sulista, criola, cabocla, sertaneja, caipira, como pontuou esse antropólogo, um dos mais enfáticos estudiosos das gentes brasileiras.
Nessa reflexão onde deito olhares sob esses vários “brasis”, é imprescindível fazer o contraponto com as ricas singularidades e as inúmeras semelhanças de cada lugar. E ponderar que nesse contexto tão profundamente miscigenado como o nosso, não há a menor possibilidade de criarmos guetos nativos de identidade própria, com o propósito de negar outras nativas identidades, como se essa ou aquela fosse melhor ou pior. Aqui e ali, somos tão iguais! E com outras tantas diferenças e peculiaridades que nos somam e nos enriquecem como gente, como povo.
Não reconhecer o efeito transformador dessa rica diversidade é um erro cultural tão crasso quanto o da polarização que empobrece o debate político, coloca em risco as instituições, a democracia, emperra o crescimento do país e a confiança dos investidores, impedindo os avanços estratégicos que o país precisa para se posicionar competitivamente no mundo global. Isso sem falar no quanto a bipolaridade abala as inter-relações e polui de amargo rancor os espaços das redes sociais que poderiam ser mais eficazes e produtivos.
As nocivas narrativas do “nós|eles” e o desrespeito ao contraditório promovem a intolerância, o estímulo ao ódio, aos preconceitos de todas as ordens, inclusive o preconceito regional que desvaloriza esse amálgama cultural brasileiro, rico de etnias, manifestações, tradições e multiplicidades.
Isso posto, é prudente e inteligente entendermos que estamos todos juntos e misturados e que se por acaso ficar “shalow now”  (juntos e rasos), corremos sério risco de viramos risíveis memes para o resto do mundo.